23/05/2012

Divagando em preto e branco

Você chega em casa acabado. Ganhamos, 1 a 0, sofrido. SOFRIDO. Você percebe que isso te mudou, te deixou desconfiado quando tudo tá muito fácil, afinal, aqui “tudo é mais sofrido”. Tem que ser assim, quando você se esquece, eles te lembram. Mas você percebe também que passou a dar mais valor, aproveita mais intensamente cada coisa boa, afinal, foi sofrido.

Tudo que você precisa é um banho para baixar a adrenalina e limpar corpo e alma de um dia exaustivo. Trânsito, trampo e esse jogo, jogamos mal. Pra piorar você se perdeu voltando do Pacaembú, umas voltas a mais, enfia o GPS no porta-luvas e se vira sozinho. Tá frio, mas você tira a roupa, fica só de cueca. Vai até a cozinha, tem uma pizza fria, quem ficou em casa comprou uma redonda pra celebrar o jogo. Todo mundo achava que ia ser fácil, você também. E o jogo foi difícil, jogamos mal e o técnico ainda foi expulso, você já viu em algum lugar que ele assistiu o resto do jogo da arquibancada. Dane-se, você estava lá antes.

Resolve que é um bom momento pra comer aquela pizza destinada ao café da manhã do dia seguinte, enche um copo de coca e comi ali, em pé. São duas horas da manhã e ainda é possível ouvir os fogos. Somos diferentes, eles nunca entenderão. Você sorri, aquele riso de satisfação. Afinal, a única coisa que eles têm é esse título e agora ninguém segura a gente. Você termina o copo de coca e põe os pés no chão, “ainda faltam quatro jogos”. E vão ser difíceis, porque, cacete, o time jogou mal. Mas a torcida jogou e jogou muito, você jogou, você tava lá. Não fosse aquele seu grito mais forte o grandão não tinha tirado aquela bola, depois da falha do lateral. E tem aquela camiseta, dá sorte, já são três jogos, um empate duas vitórias: invicta! E o estádio? Nunca havia visto aquilo, a festa tava linda, mas se perdesse.... porra, você nem quer pensar nisso.

Amanhã tem trabalho, vai ser duro levantar cedo. Você sente a garganta, sabe que vai ficar sem voz. Não importa, eles não entenderiam se você dissesse. Outro sorriso. Hora de tomar o banho. Quem sabe escrever um texto pro blog, faz tempo que você não escreve nada e é sempre inspiradora essa euforia, você sabe que deixou algumas inspirações passarem nos últimos dias e se arrepende, daqui pra frente vai escrever, nem que sejam duas linhas.

Caralho, vencemos! E a previsão do tempo pra amanhã é de chuva, com um sorriso você pensa que não se surpreenderia se saísse um sol, só pra dar uma conferida na alegria do povão. Ou na sua alegria, afinal, salve Jorge, essa tem se tornado uma constante.

03/05/2012

Muito

Depois de muito tempo, queria escrever.
Era muita vontade pra pouco tempo, pouca paciência, pouca fibra.
São muitas ideias pra pouca cabeça, pouca organização, pouca calma.
Muita inquietude pra passar pro papel ou pra tela do computador.
Muita coisa acontecendo pra pouca vida.

Muito de mim, tanto que eu nem sei.

05/12/2011

Corinthians Campeão! E qual a importância disso tudo?!

O último título corinthiano antes da fila de 23 anos foi o Paulista de 1954, o título do quarto centenário. Era época de reinvindicações por melhorias estruturais no país, havíamos acabado de uma ditadura, vivíamos a tentativa de uma sociedade democrática. A luta pelas reformas de base tomou a última paulada com o golpe militar de 1964, seguiram-se anos de chumbo e com eles a fila corinthiana, sem um título de expressão (ganhamos algumas taças aqui e ali). Em 1977, nos pés de Basilio, o Corinthians saiu da fila. Alguns anos mais tarde as máquinas paravam, os trabalhadores resolveram falar, eram as greves do ABC mostrando perspectivas de romper com o regime militar, novos ares em tempos sombrios. Veio a Democracia Corinthiana em 1982 e as primeiras eleições para governador. Ganhamos o Bicampeonato Paulista (82/83), em 1983 e 1984 ocorre a campanha pelas eleições diretas, o povo resolveu ir às ruas. As primeiras eleições diretas para presidente só aconteceriam em 1989, em 1990, pela primeira vez, o Corinthians ganhava o Brasil. Os anos 90 trouxeram consigo o futebol moderno, marketing e toda a sujeira que vemos como normal hoje, não vou falar deles aqui.



Diretas Já, 1984. Praça da Sé - SP


O que importa é que, coincidência ou não, as vitórias do Corinthians sempre estiveram próximas de fatos históricos importantes para o povo. Antes de afirmar que não ganhamos nada com isso, com o título ou sem ele, sempre ganhamos com o Corinthians. Quando o Corinthians pode, o povo também parece poder. Sócrates diz no vídeo abaixo: “O Corinthians é uma voz, uma força, uma forma de expressão que sua população tem”. É isso que ganhamos com o Corinthians, é isso que o Corinthians traz pra gente. O título vem coroar isso. E quem sabe, o título seja anuncio de boas novas, junto com tantas ocupações e manifestações em um mundo em crise, mas também em processo de mudança.



Hoje foi pelo povo, pela nação, pelo Doutor que foi antes de tudo um lutador e se foi hoje (domingo com título do Corinthians, pra FIEL poder comemorar, mesmo que de luto). Isso nem o preço abusivo dos ingressos (e a consequente elitização dos estádios), nem a administração do Sanchez/Ronaldo e o marketing do Rosenberg vão conseguir mudar.




O TIME DO POVO FOI CAMPEÃO! Assim como o povo, contra tudo e contra todos. Às vezes até contra ele mesmo.

Se o Corinthians pode, nós podemos.

VAI CORINTHIANS!

28/08/2011

Considerações sobre as manifestações na FSA contra o aumento de 17%.

1- A Assembléia realizada no último dia 23/08 foi muito boa, diferentemente do que eu esperava até momentos antes do seu início, principalmente pela forma confusa e pelo pouco tempo com qual foi organizada.

2- A divulgação de dois horários divergentes para início da assembléia foi algo absurdo, podia ter decretado o fiasco do movimento estudantil. Não fosse o horário de 21h o intervalo, fazendo com que as pessoas saíssem naturalmente das salas e, principalmente, o aumento não ser um problema tão grave e que atinge todos numa tacada só, terça teria sido deprimente. Embora, seja um fato lamentável, apesar de compreensível, que alguns estudantes tenham chegado as 19h30m e, por não terem encontrado nenhuma assembléia, tenham ido embora.

3- A confusão com os horários pode ter sido reflexo do pouco tempo para organização, de certa inexperiência ou da pura má intenção. De qualquer forma, teremos que continuar. Mas prefiro acreditar que foram os dois primeiros motivos que causaram a confusão, porque isso podemos corrigir. Em todo caso, ainda que eu tenha pensado diferente inicialmente, a atitude da gestão do DA em segurar e manter a assembléia para as 21h, do contrário, provavelmente, ocorreriam duas coisas: a assembléia não estaria tão cheia e as discussões cairiam para quem errou no horário – como tentaram fazer quando a assembléia se iniciou.

4- Assembléia realizada, divergências postas, foram votados o ato na Av. Lions, que se entrasse na justiça para barrar o aumento, uma audiência pública com a reitoria e se sugeriu ocupação da reitoria, idéia que se perdeu, seja pelo esvaziamento que começara ou pela percepção que aquele não era, de fato, o momento.

5- O ato de sexta 26/08 foi bom enquanto início das movimentações, se assumirmos aquilo como o que temos de melhor, corremos sérios riscos de fracasso. Estávamos em menor número que na assembléia e tínhamos vários militantes de fora da FSA. Aqui são várias as motivações, mas principalmente: a) o pouco tempo para organização do ato. b) o velho erro de não ter sentado e conversado adequadamente com os diversos setores da FSA – aqui me refiro especificamente aos cursos da FAFIL e dos outros prédios que, em geral, não estão acostumados com a lógica de assembléias, atos ditos radicais e afins – e esperar que, no grito, eles nos acompanhem. c) o discurso ardiloso da reitoria acerca do funcionamento dos “descontos”, que parece ter, pelo menos por enquanto, maior penetração no corpo estudantil que o próprio movimento.

6- Tentou-se fazer uma votação ao final do ato, momento em que já se iniciava novamente um esvaziamento, se deveríamos ou não ocupar a reitoria e qual seriam os rumos do movimento. Estava muito difícil de entender o que cada um falava e parecia quem alguns nem tinham exata clareza do que queriam – um militante chegou, em um intervalo de 5 minutos, a sugerir as seguintes opções: “votar se ocupamos ou não a reitoria”, “uma assembléia terça, para decidirmos se ocupamos ou não a reitoria” e “uma assembléia na terça” – de modo que a sugestão mais coerente, frente o que vimos no ato, foi soterrada. Uma estudante sugeriu que fossem feitas reuniões pequenas com representantes de sala de todos os prédios, para explicar tudo o que se passa com relação ao aumento absurdo e as movimentações estudantis, afim de aproximar mais a base, através de um diálogo racional e não da simples porrada, que não tem dado certo há anos na FSA. Outra estudante que endossou a opção não conseguiu ao menos terminar a fala.

7- Embora ache que, em vista da confusão que foi a votação, ela não tenha credibilidade nenhuma, foi tirada outra assembléia para terça 30/08.

8- Minha opinião, em vista do exposto, é que o momento é de somar forças com os setores mais distantes do movimento estudantil e partimos para a pressão em cima da Prefeitura de Santo André. A reitoria por si própria não irá se mexer. Com a quantidade de pessoas do ato de sexta podemos fazer pressão na câmara, na verdade, podemos transformar aquilo em um caldeirão. Mas precisamos ir coesos e acertados quem vai falar, etc.

9- Considerações: a) não quero ser idealista e achar que as tendências irão se unir de verdade pela luta contra o aumento e pela redução, ou qualquer outra, mas entendam: o que está em jogo é maior que vocês, se trata da possibilidade real de estudantes terem que interromper seus estudos e, principalmente nos cursos de humanas, o fechamento de cursos. b) qual o foco do movimento? Barrar o aumento e reduzir mensalidades ou ocupar a reitoria? Considero a primeira opção, se necessário for, ocuparemos a reitoria, mas ocupar não deve ser o foco do movimento. E, se se tornar necessário, precisamos ter um apoio da comunidade acadêmica e da população de Santo André, coisa que por ora, não temos. c) vi algumas manifestações contrárias ao movimento, escritas pelas paredes, que afirmavam que 17% seria apenas para os inadimplentes, que seu curso iria na verdade para R$ 467,00 etc. Pessoal, prestem atenção no discurso da reitoria, a questão do quinto dia útil, que a FSA conta os sábados e principalmente a situação dos cursos da FAFIL, ou dos cursos da FAENG que terão preços de Mauá e FEI. Enfim, vamos sentar e discutir com um pouco mais de clareza. d) Tá na hora de parar com os papinhos de “a chapa mais bonita da FSA é a minha”, né? Se a intenção é a eleição do DA do ano que vem, só lamento. A luta é contra o aumento e pelos estudantes e cursos da FSA. e) Durante o ato, vi um cartaz com a frase, se não me engano da Rosa Luxemburgo, “quem não se movimenta, não sente as correntes que o prendem”. Vendo a “guerra de classes e de egos” e refletindo um pouco sobre a frase, me perguntei por que chamavam as tendências de correntes...

Enfim, a FSA está em luta. E estamos só começando. TODOS JUNTOS, independente de divergências.

25/08/2011

Uma semana

Faz uma semana que a parte mais linda da minha vida voltou.
Isso significa, obviamente, muita coisa. Se minha sabida e declarada deficiência em escrever coisas bonitas não fosse tão grande... gostaria de escrever algo melhor.
De qualquer forma, mesmo com o pouco tempo, o fato de que ela está aqui de novo (a cinco minutos de casa e em breve na mesma casa) faz toda diferença. A sensação que eu posso fazer as coisas mais impossíveis está presente em mim de novo.
E isso é lindo, porque, apesar de todos os perrengues que passamos - estamos passando e, certamente, ainda vamos passar -, quando estamos juntos parece que fica tudo mais fácil. E de fato fica.
É tanta coisa que não caberia aqui e é tanto sentimento que não saberia escrever aqui também.
Bem vinda de volta ao lar, linda. Te amo.

28/05/2011

Ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais

OCUPAR, PRODUZIR, RESISTIR

“As palavras de ordem resistem ao tempo, como resiste a concentração fundiária:
0,9% dos produtores detêm mais de 35% das terras..."



Visitamos o assentamento Carlos Lamarca e um acampamento Sem Terra hoje. Amanhã ou depois farei um texto – acadêmico – sobre isso. O que me vem agora é um jorro de sentimento, não mais que isso. Dizem que quando se dá um passo à frente, você já está em outro lugar e na verdade, já nem é mais o mesmo. A pegada é mais ou menos essa.

Existe uma diferença entre acampamento e assentamento. Acampamento são os companheiros em luta, ocupando um determinado território, reivindicando essa ou aquela área improdutiva. Assentamento é o processo que se dá depois da vitória legal sobre a posse da terra.

Conheci pessoas de Minas, Mato Grosso e sei lá mais de onde, gente de garra e trabalho. Pessoas com histórias, sofrimentos e opressões diferentes, mas que tinham uma coisa em comum: a luta. Contra uma sociedade tacanha, uma mídia suja, empresários, ruralistas e governos duros. Três são as primícias: OCUPAR, PRODUZIR, RESISTIR. Esse processo só se dá na luta, luta contra as mazelas do tempo e dos homens, luta diária, justa e digna. Vi pessoas sinceras, nos recebendo bem, nos tratando bem, cantando hinos e gritos de guerra fervorosos. Fiquei extasiado.

De um lado o acampamento e as barracas de lona, de outro a terra improdutiva, que só foi limpa depois da inspeção do INCRA


Vou voltar lá. O Raúl (companheiro que tem mostrado cada vez mais seu valor) fez uma bandeira da Comuna de Paris para presentear os militantes acampados. Espero ver essa bandeira lá com eles, se tudo der certo já assentados, quando eu voltar. Conheci uma senhora, filha de pais que conseguiram terra através da luta junto ao MST, agora ela luta por terra, para ter um lugar para viver e produzir, dando condições para suas filhas, da mesma forma que seus pais fizeram há tempos atrás.



Fiquei engasgado com essa história. Que me voltou à cabeça quando alguém, no ônibus durante a volta, começou a cantar a canção de Elis. “Apesar de tudo que fizemos, ainda somos os mesmo e vivemos como nossos pais.” Até quando? Foi difícil não chorar, tão difícil quanto agora, ao escrever esse texto e ver as fotos. As senhoras e senhores, os homens e mulheres e as crianças. Enfim, o MST é grande e complexo demais para se tratar em um texto de um blog qualquer. Só quis passar o que sentiu um determinado indivíduo que visitou o movimento, principalmente em tempos tão estranhos como esse, onde a repressão é aplaudida. Tempos loucos, enfim, pra se tratar outro dia.

Podia terminar esse texto dizendo que essa foi uma daquelas experiências que te faz chegar em casa e rezar à deus agradecendo por ter uma casa, uma vida tranquila etc. Mas prefiro dizer que essa foi uma experiência que te faz parar e rezar aos homens, trabalhadores do campo e trabalhadores urbanos, que tomem suas vidas em suas mãos expropriem o que lhes foi expropriado. Hoje pela manhã eu não era o mesmo de dois anos atrás, quando comecei o curso, agora de noite não sou o mesmo que era hoje pela manhã.

Ocupar, Produzir, Resistir. MST-FSA

25/03/2011

warm.safe.place

Tô um tanto afastado do blog. Um misto de correria e azar: estou com o braço direito engessado (sou destro) e é uma merda bastante grande escrever com uma mão só. Queria ter escrito um monte de coisas, sobre o Egito e a tal primavera Árabe. Enfim, não deu, mas aqui estou, porque o momento me faz querer escrever.

A idéia desse blog não é ser um diário ou coisa do tipo, mas o momento particular pelo qual passo talvez seja o maior “conflito iminente” pessoal pelo que passei. A pessoa que eu efetivamente amo está a uma semana de uma viagem ao exterior para trabalho e estudo, ficará fora por um ano. Tenho plena convicção do que quero, assim como ela de certo também tem, tenho certeza também que será ótimo para ela em diversos aspectos e ser contrário ao projeto não passou pela minha cabeça. A apoio e continuarei apoiando.

Onde está o conflito, então? Oras, não seria leviano de falar de amor sem conhecê-lo em sua objetividade, nem tão pouco falaria no amor da novela das oito ou do amor burguês, condicionado e volátil. Falo do amor enquanto capacidade humana máxima, enquanto órgão de relação do homem com o mundo, assim como tantos outros órgãos humanos. Capacidade humana onde se doa o melhor até a última instância e com todas as forças. E é através desse amor humanizado que posso dizer que usufruo do amor de minha companheira, assim como ela usufrui do meu, mesmo com toda a barbárie em nossa volta insistindo em tentar atrapalhar. Sabemos dos nossos erros e dos nossos tropeços, mas temos a certeza que temos um ao outro.

E aqui está o conflito meus senhores e minhas senhoras. A pessoa mais linda - em todos aspectos - que eu conheço e a quem dedico meu amor, estará fisicamente distante por um ano. Isso não é nada fácil. Mas com certeza a distância física será suprimida. E o tempo... bom, esse passa, melhor ou pior, mas passa. O importante é o que fica, é o lugar onde temos um ao outro.

PS.: Comecei a escrever esse post ouvindo o álbum Break The Cycle do Staind, terminei quando tocava Warm Safe Place, que parece que será a trilha dos meus 365 dias vindouros, por isso aí vai o áudio.

http://listen.grooveshark.com/s/Warm+Safe+Place/1X9wm?src=5