20 de jun de 2017

Tatuagem

Todos nós nos alimentamos de tragédia, é como sangue para um vampiro (Tool - Vicarious)

Um jovem tem sua testa tatuada a força. A violência e a sensação de justiça com as próprias mãos viajam rapidamente nos grupos de whatsapp e nas redes sociais, saciando a sede de justiça de cidadãos de bem brasileiros. As imagens - que deviam causar, no mínimo, desconforto – falam mais que mil palavras: o jovem havia invadido o estúdio do tatuador. Não, era a casa do tatuador. Ou ele havia roubado uma bicicleta de alguém, tanto faz. A verdade incontestável estava gravada para sempre na testa do garoto: “ladrão e vacilão”. A justiça no Brasil, só pode ser feita por nossas próprias mãos.

Nas redes as opiniões se dividiram e no país que sempre vendeu a cordialidade como produto nacional as pessoas parecem ter resolvido finalmente tirar a máscara e defender suas ideias mostrando os dentes e, ao menos, parte de seu caráter. Rapidamente grupos passaram a condenar a tortura, inclusive organizando “vaquinhas” para custear o tratamento para remoção da tatuagem do jovem acusado, enquanto outros bradavam que o brasileiro só sente comoção por bandidos e por aí vai. A lógica binária só entende zero e um.

É claro que qualquer olhar um pouco mais atento e que tenha acompanhado as notícias sobre o caso, sabe que o desenrolar da história não foi tão simples. As únicas testemunhas do suposto crime que o garoto haveria cometido eram justamente seus torturadores e o único crime efetivamente comprovado foi justamente a tortura, gravada em vídeo e na pele do rapaz. Sobre o caso não há muito mais o que comentar: os torturadores foram presos em flagrante, tortura é crime previsto em lei, o jovem sofre de problemas psicológicos e dependência química e a prefeitura de São Bernardo, em parceria com a Faculdade de Medicina do ABC, irá disponibilizar tratamento para remoção da tatuagem.

O que fica e choca nesse caso é o que ele diz sobre o Brasil. A tatuagem que parece ser impossível remover está cravada na alma do nosso país.

Aparentemente, não conseguimos lidar com preceitos básicos de cidadania e direitos humanos, o mínimo para consideramos esse país, ao menos, civilizado. Pior, esses elementos, que são característicos das democracias burguesas, são entendidos como pautas de esquerda e são prontamente refutados por uma parcela significativa da população. Em um país que tem uma descrença endêmica, e justificável, em seu sistema político e judiciário, esse quadro de desprezo aos direitos humanos é extremamente preocupante – punições utilizadas na Antiguidade não nos chocam.

Somos uma sociedade historicamente punitivista. Punia-se os nativos por não terem deus, punia-se os escravos por não terem alma, punia-se os revoltosos por não terem direito de se rebelar, pune-se a população preta e pobre para que não tenham voz nem vez, pune-se quem se levanta contra o poder estabelecido para mostrar quem manda. Pune-se porque é mais fácil – e talvez interesse mais – que educar. E assim seguimos a vida nesse pedaço de terra que fomos destinados a viver e chamamos de Brasil. Esse pedaço de terra que, não obstante séculos de exploração e espoliação da sua população mais carente, viveu duas décadas de ditadura e tortura e, talvez por não ter enfrentado de frente seus fantasmas, agora vê sua população condescendente e até vibrante com uma cena de tortura explicita.

A cena do jovem amarrado na cadeira sendo tatuado contra sua vontade mata a sede de sangue, mata a sede acabar com esse bando de marginal e vagabundo, mata a saudade dos militares, mata o desejo de fazer justiça com as próprias mãos. O problema é que mata também aquele pouco de esperança que insistimos em cultivar e nos faz olhar e seguir em frente na busca de uma vida minimamente digna.

Se tudo der certo, a tatuagem na testa do jovem será removida em breve. Já a tatuagem na alma do nosso país parece seguir como ferida aberta, que só faz sangrar seu próprio povo. 


24 de dez de 2016

A árvore de Natal




"Na sua casa tem ceia
Na casa dele não tem."


Nasci em uma família religiosa. Quando dei por mim que eu existia, que era alguém dotado de alguma capacidade de pensar e ter vontades próprias, eu já frequentava a igreja como algo natural. Por tanto, minha relação com o natal sofreu sérias mudanças ao longo do tempo, que caminharam de perto com as mudanças da minha percepção sobre a religião.

Passei pela fase infantil, em que esperava meu pai se vestir de Papai Noel e me lembro até hoje o dia em que descobri que o da barba branca era o bigodudo do meu pai. Subi na vida e fui incluído na lista de amigo secreto da família, para minha alegria e certo lamento de meus pais que ganhavam um novo gasto.

"Na sua casa tem tem compaixão
Na casa dele tem compreensão"


Na minha adolescência comecei com contatos muito incipientes com a teologia da libertação e com o punk e músicas de protesto em geral. Em ambos os casos posso dizer que o contato se manteve no nível da curiosidade, mas foi o suficiente pra que eu cantasse por essa época que “aqui não existe Natal” e chamar o bom velhinho de “porco capitalista” ao mesmo tempo que isso não afetava minha fé, que passava a tomar contornos críticos em relação a religião e deve ser possível achar em algum blog da minha pré-adolescência algum texto falando sobre como o espírito natalino baseado na celebração do nascimento do menino Jesus estava sendo deturpado pelo consumismo. 

Passaram-se os anos, fui estudar, descobri outros deuses e divindades que fazem aniversário em 25 de dezembro, celebrações pagãs envolvendo pinheiros e homenagens ao sol. Por fim, me afastei completamente da religião, mas isso é história para outro momento. O que importa é que o Natal continuou a acontecer em casa. As vezes mais duro de grana, as vezes com uma condição um pouco mais folgada. Mas meus pais continuavam ano após ano insistindo no cenário todo: guirlandas, luzes piscando e a árvore de natal.

"Na sua casa tem alegria
Na casa dele não tem"


Eu sei que meu distanciamento da religião não agradava meu pai. Evitava tocar no assunto, mas tinha certeza que ele já havia percebido há tempos que as coisas tinham mudado. Por isso achava estranho a insistência em alguns ritos, como a árvore de natal, por exemplo. Mas anualmente o velho tava lá, fazendo tudo com esmero.

Eu e meu pai sempre conversamos sobre tudo. Mas depois que ele se foi fiquei com a impressão de que faltou assunto, ele foi embora cedo demais para que a gente tivesse tempo de falar de tudo que devia. Entre as coisas que ficaram pendentes, está a preocupação dele com a árvore de natal. Talvez esse ano eu tenha tido a resposta.

"Na sua casa bons amigos
Na casa deles apenas solidão"


Quando sai da casa dos meus pais, não via sentido em fazer uma árvore de natal, obviamente. Mas esse ano eu e minha companheira resolvemos fazer uma. Sem problemas, não muda nada na crença ou na falta dela, queríamos fazer para brincar com os bebês.

E foi aí que eu tive a resposta da pergunta que já nem me incomodava mais: por que meu pai montava a árvore de natal? Nunca vou saber se essa é a resposta certa, mas acredito que a nossa reação quando criança, minha e do meu irmão, com a fantasia da árvore de natal e todo esse espírito que parece anteceder um grande momento que na verdade não existe, tenha sido determinante. Não acho que meu pai montava árvores de natal quando eu era um adulto porque ele achava que eu ficaria feliz como uma criança, mas porque, de alguma forma, ele mantinha viva a sensação daqueles distantes primeiros anos.

Como eu cheguei a essa conclusão? Vendo a reação dos meus filhos acompanhando pela primeira vez a montagem da árvore de natal, pedindo que se ligasse as luzes piscantes e vendo mágica nesse mundo duro de concreto. Eu repetiria isso todo dia pro resto da minha vida, se fosse possível.Tudo para eles é festa, tudo é sensacional, mas foi extremamente prazeroso ver a felicidade deles, particularmente nesse momento. Quem sou para impedir isso? Se eu tive minha liberdade para construir e desconstruir minhas certezas durante minha vida, que eles tenham isso também, no tempo deles. Por isso, daqui pra frente, sempre teremos árvores de natal e luzes piscantes, mesmo sabendo de todos os problemas e das contradições e que por aqui, no terceiro mundo, “não existe Natal”.

15 de ago de 2016

Balões



É noite de domingo. Um final de fim de semana arrastado, como de costume. As crianças já estão na cama, ela está no banho e você lava a louça enquanto pensa nos afazeres da semana que está por começar. Cenas de um cotidiano que não incomoda - "só queria trabalhar menos e não estar tão fudido de grana" - você pensa.

De repente, uma explosão quebra a monotonia do momento. A explosão é seguida de outras, o que desperta sua atenção. Há algumas semanas algumas explosões romperam a noite por conta da repressão da polícia a uma manifestação dos moradores de uma comunidade próxima, aparentemente por conta do assassinato de um suposto traficante da comunidade. Você sabe de tudo isso porque viu alguns comentários de moradores do bairro na internet, contando - não sem uma grande dose de preconceito - o que supostamente acontecia (as infelicidades variavam de piadas infames até a comemoração de que era possível assistir toda a confusão da sacada de seus apartamentos). A lembrança te entristece, mas você sabe que dificilmente seria algo desse tipo. 

Enquanto você se lembra da barbárie cotidiana, as explosões ficam com intervalos cada vez menores, logo você percebe que se tratam de fogos de artifício. "Um balão!". Você corre até a sacada para ver, balões não são raros pela região e é sempre bom ver balões. Embora não seja uma paixão propriamente sua, é sempre bom lembrar do velho. Ele gostava de estar com a cabeça nas nuvens, esse mundo era pouco e ele nunca se encaixou direito aqui mesmo. Além disso, você nunca entendeu essa fascinação que ele tinha por balões e pipas e coisas do tipo. Antes de chegar na sacada você se dá conta da falta que ele ainda faz. "A dor nunca passa, nem diminui".

É o terceiro dia dos pais sem ele. O terceiro de muitos e você sabe que esse dia vai ser sempre esse misto de emoções entre o amor de seus filhos e o buraco da saudade do seu velho. Um balão podia ser um olá. "Que bobeira" você pensa, rindo de si mesmo e da fragilidade do seu pensamento racional quando o assunto é esse. Com a esperança de uma criança que vai até a porta receber o pai depois de um dia de trabalho você abre a sacada, seguindo o som dos fogos de artifício e nada. O mesmo céu, os mesmos prédios, o som das crianças brincando nas quadras dos prédios. Você vira sua cabeça para esquerda, na direção do som dos fogos e vê o festival pirotécnico no horizonte, um casamento com fogos de réveillon, talvez, mas definitivamente nenhum balão.

Apoiado na grade da sacada, com um nó na garganta e a cara enfiada na rede de proteção você sente o vento da noite que esfria nesse fim de domingo de agosto. "Balões são iguais a você, seu velho gordo - grandes, lindos e sempre com uma possibilidade enorme de terminar tudo em cagada" você ri, sabe que ele iria rir junto aquele riso de criança que não sai da sua cabeça. Você conta rápido na cabeça todos os lugares, coisas e até os seus próprios gestos em que ele permanece vivo e presente, você não precisava ver um balão para saber que ele continuava junto. Já perdido num emaranhado de pensamentos e emoções que vieram e voltaram nos últimos dias, você lembra daquele pensamento popular segundo o qual se morre duas vezes nessa vida - uma a sua própria morte física e a segunda quando a última pessoa que lembra de você te esquece ou morre também. 

"Nem preciso dizer que enquanto eu estiver vivo não deixarei você morrer a segunda, né, velho?" você pensa enquanto levanta a cabeça vagarosamente, alongando o pescoço com os olhos fechados e num suspiro profundo . Quando você solta o ar e abre os olhos é possível ver um ponto vermelho, meio amarelado cintilando sobre sua cabeça, lá no alto do céu. Você não sabe o que vem primeiro: as lágrimas ou a percepção que aquilo é um balão, subindo como se acenasse para você. Nas nuvens como ele sempre quis estar. Lindo como o som do teu velho dizendo a frase que vindo dele você nunca ouviu, nem ouvirá: "Feliz dia dos pais".

22 de jun de 2016

Oito negro - Cristóvão Borges no Corinthians

O número oito nunca foi para fracos.

Já disse isso outras vezes. Não bastasse o oito do meu velho, no Corinthians, o oito tem algo de especial. O oito não, “a” oito.

A oito aqui já foi do Pé de Anjo, do Doutor, do Colombiano, do Doido que subiu na grade numa quarta de final de Libertadores, que virou o jogo da vida de muita gente.

No ano em que eu nasci, a oito pertencia a um meio campo habilidoso, marcador de gols, que, embora não tenha ganhado nada no tempo que passou pelo time, saiu daqui para ser vitorioso até na seleção.

Cristóvão Borges. Baiano que volta para o time quase trinta anos depois de sua despedida para ser técnico. O time é outro, diferente do time recém saído da democracia e que ganhava apenas títulos regionais, agora o Corinthians é um time multicampeão e a democracia virou mera estampa de camisa para o marketing do clube. A torcida também é outra, mal acostumada com fartura de títulos desde os anos noventa, nada de longas secas como antigamente, uma impaciência bem distinta do que existia nos anos 80.

Cristóvão chega com a missão de substituir o técnico mais vitorioso da história do clube, sem nunca ter ganho um.titulo como técnico por onde passou. Mas essa talvez seja a mais simples de suas missões.

O baiano de fala calma chega para ser o primeiro técnico negro do Corinthians em vinte e cinco anos. O último negro a treinar o Timão foi outro camisa oito, Basílio, o Pé de Anjo. Nem toda idolatria do corinthiano ao Basílio seguraram ele por mais que poucos meses no cargo.

Isso não é pouca coisa ou mero detalhe, porque é um padrão. No campeonato atual (Brasileiro 2016), além do Cristóvão temos apenas o Roger (Grêmio) como técnico negro em atividade na série A. Em um país em que cerca de 50% da população se declara negra ou parda isso é significativo. Isso mostra muito dessa sociedade em que o “sucesso” tem raça, cor e gênero. E é emblemático que o Corinthians, um time que tem seu segundo uniforme negro como protesto contra a proibição da inscrição de jogadores negros pela liga paulista, não fuja a regra do racismo velado que vivemos no Brasil. Por isso, torcer pelo sucesso do novo técnico corinthiano é torcer, de certa forma, por uma descontrução de pensamento e de atitude não só no futebol, mas também na sociedade.

Toda sorte ao Cristóvão como técnico do Corinthians. Toda sorte na luta contra o racismo. E que o Corinthians e sua torcida consigam ser, de fato, o clube mais brasileiro - dessa vez contra o racismo. VAI CORINTHIANS!

28 de mai de 2016

Celeste

É quinta-feira, primeiro dia de uma emenda de feriado de quatro dias. Você pega o celular e o relógio marca 05h40min. “Merda” – você pensa. O programado era levantar cedo, mas não tanto. Um misto de costume com ansiedade te fez abrir os olhos muito antes do esperado. A decisão é ficar na cama mais um tempo, lutar por mais uns dez minutos de sono. “Por que eu faço isso?”.

Ao se virar na cama, você se dá conta que Ela não está lá. De certo seus Moleques acordaram e Ela foi passar a noite com eles, algo recorrente nos últimos tempos. Moleques. Pouco mais de um ano e é isso que eles são, Moleques. Inevitavelmente um leve sorriso se abre em seu rosto, mesmo com todas as tretas de grana e a correria de trampo, sabe que sua vida nunca foi tão boa.

06h30min. Você queria levantar as 07h, os outros chegariam por volta das 08h. Rolar na cama sem conseguir dormir te faz decidir levantar, tomar café e arrumar as coisas para sair. Faz frio. Muito frio e você ainda se questiona o porquê. “Por que não vou me deitar com eles?”.

Pega calção, meião, chuteira e desce. Um dos caras já está lá no frio, o outro atrasado como de costume. Um pouco de conversa e partimos. No caminho as coisas vão se explicando. As risadas sobre bobeiras, as conversas sobre as coisas da vida, os rumos desse time que você se orgulha de fazer parte e ter ajudado a criar e se dá conta que, nesse tempo afastado, sonhou diversas vezes que estava vestindo aquela camisa azul celeste em mais uma partida. Consigo mesmo você ri. Quando criança seus sonhos envolviam outra camisa, uma preta e branca, daquele time marcado no seu coração. Mas agora é diferente. Agora não, agora você faz parte efetiva desse novo time, que preza por uma consciência proletária, enquanto aquele se esvai distante, se perdendo em cifras milionárias.

Chegando no campo, um terrão, palco da primeira vitória do time, você admira a beleza inscrita em todas suas imperfeições. Na primeira vez que vocês jogaram nesse campo, seu time venceu os donos da casa por 4 x 3, de virada. No segundo jogo contra esse mesmo time, você não estava e seu time perdeu. Essa seria a partida de desempate, de um jogo que começava a tomar ares de rivalidade.

Enquanto admira os detalhes que só existem em um campo de várzea, você pensa rindo “Nunca perdi nesse campo”. Os demais vão chegando. O time adversário também. Vocês vão para o campo aquecer o goleiro. Nada como chegar cedo no campo.

Hora de distribuir uniformes. Você não quer entrar jogando, na verdade tanto faz. Você quer a número 13. Seu Velho, aquele safado, usava a 13. Uniformes distribuídos, bandeira colocada no alambrado. Fotos e começa o jogo. Você ouve o nome do time sendo gritado, tudo começa a fazer sentido. Acordar cedo no feriado, o frio, não se deitar com a família. Você se lembra porque faz isso.

Começa o jogo e é tudo que você quer da várzea. Jogo duro, juiz caseiro, clima tenso, bate boca, falta, quase treta, bola que cai na avenida e volta, bola que cai na avenida e é atropelada, gol dos caras, nosso empate, expulsão, jogador machucado, gol nosso, mais um gol nosso, vitória de virada! E puta que o pariu, é por isso que você faz isso! E puta que o pariu ainda bem que você veio! No campo da várzea é onde tudo isso faz sentido. Você sorri e se orgulha de poder fazer parte disso tudo.

Hora de voltar pra família, cansado e feliz.

Que dia lindo de várzea. Obrigado, Celeste.

26 de mai de 2016

Os trinta, a barbárie e a cegueira

"Quando o médico e o velho da venda preta entraram na camarata com a comida, não viram, não podiam ver, sete mulheres nuas, a cega das insônias estendida na cama, limpa como nunca estivera em toda a sua vida, enquanto outra mulher lavava, uma por uma, as suas companheiras, e depois a si própria."
(José Saramago - Ensaio sobre a cegueira)

Barbárie.

Foi a primeira coisa que me veio a mente. Mas nenhuma palavra é suficiente explicar para o sentimento frente ao caso da menina estuprada por trinta homens. Passada a náusea e a ânsia, me veio à lembrança o Ensaio sobre a cegueira, de José Saramago, a parte da história que antecede o trecho destacado acima, e o que mais dói é que, por ser verdadeira, a realidade se torna muito pior que a ficção.

[Antes de continuar, um aviso: esse texto é para os homens.]

Caras, a primeira coisa em relação a esse caso é não falar sobre esse assunto com as mulheres em sua volta se não for para prestar solidariedade. Qualquer outra coisa, agora, é inútil e desrespeitoso. Nós não sabemos o que é ser mulher nessa sociedade. Em um esforço extremo, no limite de nossa empatia, podemos apenas imaginar o que é isso. Quem dirá então saber o que nossas companheiras, mães, irmãs, filhas e amigas estão sentido nesse dia de hoje. Portanto, se não for para prestar solidariedade, silencie-se.

Talvez, em uma sociedade onde a informação é tão rápida, para isso já seja tarde demais, mas a segunda coisa a se fazer é não assistir aos vídeos, não compartilhar os vídeos e fotos, não estimular ou ser condescendente com piadas sobre. Isso ultrapassa todos os limites, é degradante, é desumano, é a face final do machismo. E é aqui que isso atinge a todos nós, homens. É necessário parar de justificar o injustificável e rever os posicionamentos em relação à violência contra a mulher.

Foram trinta homens que violentaram uma jovem. A história ainda está vindo a tona, os dados ainda não são exatos, mas algumas coisas podem ser avaliadas desde já.

Ao que tudo indica, uma jovem de cerca de dezesseis anos que foi dormir na casa do namorado, algo relativamente normal, foi dopada e violentada. Destaco que a prática de adolescentes dormirem nas casas de namorados (as) é considerado normal, porque um dos argumentos de quem não compreende que a sociedade é conivente com casos de estupro, culpando de forma geral a vítima, é o de que a vítima teria "buscado" essa situação em lugares de risco, "naturalmente propícios" a essas situações de violência. Estupro não é relação sexual e NUNCA é culpa da vítima. Isso tem que ficar claro, não se pode achar meios de fazer parecer outra coisa.

Trinta homens violentaram uma jovem: um namorado, em quem provavelmente a garota depositava algum nível de confiança, e outros vinte e nove homens. Os argumentos de que estuprador é doente, perturbado, psicopata ou qualquer coisa que o valha, se mostram de uma vez por todas ridículos. Ou alguém vai defender que eram trinta loucos juntos? Eram trinta homens que se sentiram no direito de abusar sexualmente de uma mulher, pois eles eram homens, ela uma mulher. Eles superiores, ela inferior. Eles com desejos e ela para satisfazê-los. O nome disso é machismo e isso não é doença, isso é parte da nossa sociedade.

Passou da hora de ver que isso atinge a todos nós. Todos nós, homens, temos nossa parcela de culpa na barbárie que atingiu essa garota. Aquele nude compartilhado, aquela vida exposta sem consentimento e abusando de uma relação de confiança, aquelas risadas e comentários sobre aquela "vadia", aqueles infinitos micro machismos diários, estão todos ligados, ainda que indiretamente, com a desgraça que recaiu sobre essa menina, queiramos ou não.

Passou da hora de se posicionar, de deixar de ser tolerante com o abuso, de tesourar aquele seu amigo de infância que "vazou" a foto da colega de faculdade, de colocar no lugar aquele cara do trabalho que assedia a estagiária. Chega de cegueira. É hora também, e é sempre hora, de revermos nossos machismos, nossas atitudes diarias pra que não tenhamos mais que lamentar.

Quem sabe um dia poderemos estar tranquilos por elas. Poderemos estar tranquilos por saber que estão todas em paz. E poderemos dormir tranquilos com nossa consciência. Mas esse dia não é hoje. Hoje é dia de se envergonhar, de se lamentar e rever cada ação nossa que possa abrir qualquer brecha de tolerância ao machismo.

Todo apoio e solidariedade às mulheres nessa luta, até o fim.

14 de mai de 2016

Reflexões debaixo da ponte

E aí, tudo bem?

Chega mais.

Agora que estamos juntos aqui, você pode se abrir.

Nunca foi a corrupção, né? A inflação, ou a crise econômica? Não, nós sabemos que não se tratava disso. Quer dizer, essas coisas te incomodam e me incomodam também. Mas nunca foi esse o problema. Aqui a gente ri dessas coisas, continua trabalhando e supera tudo aos trancos e barrancos, não é mesmo?

Os impostos, era isso! Nem importa que, no meio de tanta canetada e alteração nessas últimas vinte e quatro horas, nada tenha sido dito sobre os impostos e que ninguém tenha dito uma vírgula sobre o fato de você pagar o mesmo percentual de impostos que o Silvio Santos.

O projeto econômico. Poderia ter sido isso, mas ambos sabemos que você não se deu ao trabalho de procurar saber disso, nem se deu conta que os dois projetos econômicos em disputa lá atrás eram bem parecidos. Muito menos se preocupou em ler sobre a tal “Ponte para o futuro”, não é mesmo? Cuidado, pode ser que essa escuridão que tem pairado sobre nossas cabeças não seja outra coisa que não a sombra dessa ponte, o que significa que nosso lugar, agora, é bem embaixo dela.

Os argumentos sempre foram firmes como castelos de cartas. As respostas cheias de retóricas vazias, pequenas piadas irônicas e o nariz empinado escondiam o desconhecimento completo do panorama geral. Você, algum dia, se importou com isso?

Você sabe. A gente sabe.

Isso tudo foi construído com base no ódio. Você sempre odiou a ideia de um ex-peão de fábrica na presidência, a continuidade disso então, nem se fala! E pouco importa que esse governo tenha governado de maneira muito parecida com o que havia antes (com poucas, mas importantes diferenças), feito TUDO que a classe dominante queria, tenha tentado a tal conciliação e falhado nisso miseravelmente, não por incompetência, mas porque isso é simplesmente impossível.

Nada disso importa. O ódio basta por ele próprio.

Mas o ódio tem essa característica sempre – fere o odiado, mas não deixa impune aquele que odiou – em maior ou menor medida ele vai te atingir. E agora você está percebendo o tamanho da cagada, porque, bem, você não é pecuarista, nem industriário. Você é um trabalhador comum, talvez micro empresário. Em vinte e quatro horas retrocedemos cerca de trinta anos, politicamente falando. E a culpa é de quem? Obviamente continua sendo dos outros, não de você que serviu de massa de manobra pra esse golpe passar, enquanto bradava contra corrupção.

A culpa é de quem votou em uma presidenta e um vice e em um projeto de governo e que agora vê esse vice traindo tudo. A culpa não é sua que lutava contra corrupção pra colocar um corrupto no poder. A culpa não é sua que, ao enxugar os ministérios ele tenha fechado a Procuradoria Geral da União, que combatia a corrupção. A culpa não é sua que educação e cultura são vistas como um estorvo para esse novo governo. A culpa não é sua que o atual ministério não tenha nenhuma representatividade de povo brasileiro. Não, a culpa não é sua que nos enfiamos em um lamaçal que ainda não sabemos como vamos sair. Agora, ao ver o tamanho do erro, te resta mediocremente continuar a apontar o dedo, sem se preocupar em entender o que estamos passando.

Onde você estará quando se der conta? Onde os seus estarão? Agora que seu ideal venceu, pra onde vamos?

Você não se questiona, mas acho que deve começar logo, antes que essa “ponte para o futuro”, que passa acima e longe de nós, desabe sobre nossas cabeças.